10 de julho de 2016

O Bom Samaritano




A primeira leitura da liturgia de hoje (Dt30,10-14), fala-nos da maravilha que é possuir uma lei feita por Deus e que, por isso mesmo, leva à Vida. Essa Lei está impregnada no nosso ser.

O Livro do Deuteronómio diz que ela “está ao seu alcance: está na sua boca e no seu coração”. Isso significa que não deveremos ficar presos a um código de regras, de prescrições, mas que nos entreguemos, sem reservas, à promoção da Vida.
No Evangelho, a parábola do Bom Samaritano, contada por Jesus, deixa isso claríssimo. O Mestre dá a essa Lei um nome: misericórdia!
A misericórdia promove a Vida. Ela não faz rodeios para salvar o ser humano.
A Vida está em primeiro lugar. Salvaguardar a Vida, seja de quem for, é a Lei Máxima! E quando se fala em Vida não se restringe à vida física, mas se compreende também a moral, a psíquica, a espiritual.
Fala-se da Vida do Homem. Tudo deve estar subordinado a esse valor, porque Deus é Vida e Ele assim determinou que fosse. Por isso, matar alguém, física ou moralmente é um pecado grave.
Do mesmo modo é desconhecimento da revelação do Amor de Deus, qualquer atitude que demonstre falta de misericórdia. Está escrito: “Quero a misericórdia e não o sacrifício”.
Por que é um samaritano quem pratica a misericórdia na parábola contada por Jesus? Será que Jesus quer simplesmente incomodar os judeus? Não, não é nada disso. Ele até pode ter esse desejo, e certamente o tem, de alertar seus concidadãos. Mas a figura do samaritano, nesta parábola, tem o significado de ser alguém que desconhece um código de leis. Jesus quer destacar que esse homem nascido na Samaria agiu somente por causa de seu coração. Ele teve a sensibilidade de perceber a situação de miséria em que se encontrava o homem assaltado. Ajudou muito para que tivesse compaixão, sua origem samaritana, de marginalizado. Ele se identificou com o pobre coitado e agiu como Deus, isto é, teve compaixão. Segundo Lucas, somente Jesus tem compaixão. É um gesto eminentemente divino! O QUE É MEU É TEU!  QUERO QUE VOCÊ TENHA VIDA!

Podemos apreender o seguinte ensinamento: para alguns, a salvação está no cumprimento das leis; para outros, nos atos realizados dentro de um templo; para o samaritano, está em assumir a Vida e colocar-se a caminho dos que estão sendo privados dela. Ao se solidarizar com o marginalizado, o samaritano encontrou Deus e a verdadeira religião. (Reflexão do Padre Cesar Augusto dos Santos para o XV Domingo do Tempo Comum)

31 de maio de 2016

Visitação de Nossa Senhor


Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor? (cf. Lc 1,39-56)

Deus é uma visita permanente que salva, alegra e compromete!
Quem acolhe esta visita de Deus, torna-se um visitador,
um portador de Deus e da alegria, que anda ao sabor do Espírito!
Assim aconteceu com Maria de Nazaré, a Virgem visitada,
que corre ligeira e leve pelas montanhas da Judeia!
Isabel, a escondida agraciada por Deus, na sua velhice,
abre as suas portas à Mãe do seu Senhor,
rejubila com o Messias escondido no seio de Maria
e confirma no seu seio o Precursor que dança de alegria!
Como podemos ficar fechados, nós que fomos tão visitados?
O mundo todo visita a nossa casa, a cada instante,
pela porta da televisão, pela coluna da rádio,
pela janela da internet, pelo espelho do telemóvel...
Há visitas que nos deixam tristes, outras alegres,
umas alimentam a fé, outras o materialismo,
umas despertam compaixão, outras raiva e revolta,
umas geram solidariedade, outras medo ou apatia,
umas comprometem-nos com o bem comum,
outras adormecem-nos no sonho e no passatempo!
São visitas, a maioria virtuais, que não têm o calor do abraço,
o cheiro da intimidade, a beleza da verdade,
o peso da presença, a comunhão dos sentidos!
O verdadeiro encontro mexe com as entranhas,
alimenta o amor, move para novas visitas!
Senhor, louvado sejas pelos sinais do teu amor misericordioso,
no Sol que cada manhã nos visita,
na sinfonia de aves que cantam,
no amigo ou o pobre que nos bate à porta,
na Palavra que ecoa bem fundo como vendaval suave,
na Eucaristia que visita o coração, às vezes desarrumado...
Louvado sejas, ó Maria, por seres Mãe que nos visita,
nos dás alento, nos escutas e conduzes a Jesus!
Faz de nós visitadores que levam a alegria,
transmitem a paz, se tornam presente
e transformam a rotina num tempo especial e evangelizador!
Maria da visitação faz de nós missionários da esperança!
José Augusto Duarte Leitão 

21 de maio de 2016

Solenidade Santíssima Trindade



261 O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. Só Deus no-lo pode dar a conhecer, revelando-se como Pai, Filho e Espírito Santo.
262 A Encarnação do Filho de Deus revela que Deus é o Pai eterno, e que o Filho é consubstancial ao Pai, isto é, que ele é o no Pai e com o Pai o mesmo Deus único.
263 A missão do Espírito Santo, enviado pelo Pai em nome do Filho (cf. Jo 14,26) e pelo Filho "de junto do Pai" (Jo 15,26), revela que o Espírito é com ele o mesmo Deus único. "Com o Pai e o Filho é adorado e glorificado".
264 "O Espírito Santo procede do Pai enquanto fonte primeira e, pela doação e pela doação eterna deste último ao filho, do Pai e do Filho em comunhão" (S. Agostinho, Trin. 15,26,47).
265 Pela graça do Batismo "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" somos chamados a compartilhar da vida da Santíssima Trindade, aquí na terra na obscuridade da fé, e para além da morte, na luz eterna (cf. Pablo VI, SPF 9).
266 "A fé católica é esta: que veneremos o único Deus na Trindade e a Trinidade na unidade, não confundindo as pessoas, nem separando a substância; pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, co-eterna la majestade" (Symbolum "Quicumque").
267 Inseparáveis naquilo que são, as pessoas divinas são também inseparáveis naquilo que fazem. Mas na única operação divina cada uma delas manifesta o que lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo.(conf.Catecismo da Igreja Católica)

Santissima Trindade

15 de maio de 2016

Pentecostes




A descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos permitiu-lhes falar "outras línguas" (Act.2.4), um fenómeno testemunhado pelos "judeus piedosos provenientes de todas as nações que há debaixo do céu" que se encontravam em Jerusalém. Tratou-se de um milagre de dicção (os Apóstolos a falarem línguas estrangeiras) ou de audição (eles falavam em aramaico, mas cada um compreendia no seu próprio dialecto)? Este fenómeno tem feito correr muita tinta. De todas as formas o que Lucas pretende fazer-nos compreender é: a confusão de línguas, em Babel (Gn.11), tornara os homens incapazes de se entenderem; o Espírito Santo concede agora à sua Igreja o poder de se fazerem compreender por todos os povos.
Em Babel não se compreendiam uns aos outros (Gn,11,7); no Pentecostes, «cada um os ouvia falar na sua língua» (Act.2,6).
O discurso de Pedro é a explicação para o que estava a acontecer. Ele faz referência aos desígnios de Deus tal como foi revelado ao Seu povo.  Pois tudo o que estava a acontecer já tinha sido anunciado por meio do profeta Joel, e das Escrituras. Pedro anuncia-lhes Jesus Cristo, a sua missão, concentrando o seu discurso no mistério da Sua Morte e Ressurreição. Muitos naquele dia acreditaram em Jesus e receberam o baptismo.

Neste capítulo pode-se notar a força e a coragem que o Espírito Santo infundiu nos Apóstolos. Aqueles que antes estavam fechados no Cenáculo, com medo dos judeus, agora anunciam com entusiasmo Jesus Cristo e o Evangelho. Por outro lado o Espírito Santo permite que muitos compreendam e aceitem a pregação dos Apóstolos.

13 de maio de 2016

O primeiro Pentecostes


Os apóstolos recebem o Espírito Santo (Act:2,1-41)

A primeira tarefa dos discípulos foi, simplesmente aguardar, assim lhes tinha ordenado Jesus, pois receberiam o Espírito Santo que lhes daria a força e a coragem para os ajudar na missão que lhes confiara.
Na manhã do primeiro Pentecostes após a Ressurreição, estavam os discípulos reunidos com Maria, mãe de Jesus, subitamente todos ficaram repletos do Espírito Santo. Cada um deles escutou o som de um  vento forte, viu línguas de fogo poisarem sobre si. Começaram a falar várias línguas, de forma que grande parte da multidão que tinha vindo a Jerusalém para celebrar o Pentecostes acorreu para os escutar, e todos eles os entendiam. Por fim, Pedro tomou a palavra e pronunciou o seu primeiro discurso. Nesse dia, Pedro conseguiu converter cerca de 3 000 pessoas que se fizeram baptizar. (conf. Act.2, 1-41)
O dom do Espírito Santo tem uma importância fundamental para o autor dos Actos , porque é a força motivadora de toda a história dos primeiros cristãos.
È o Espírito Santo que:
- faz novos convertidos
- permite que haja milagres
- dá coragem e sabedoria aos chefes da nova Igreja
-  os orienta para iniciativas importantes.


O dom do Espírito Santo ter acontecido na Festa de Pentecostes, festa judaica das semanas (Ex.23,16; Dt.16,10), talvez tenha um significado especial. Esta festa começou por ser uma celebração agrícola, que assinalava o fim da colheita do trigo e a oferta dos primeiros frutos. Mais tarde passou a comemorar a entrega da Tábuas da Lei a Moisés, no Sinai, e a descrição do dia de Pentecostes poderá ser interpretada como o momento em que a Antiga Lei judaica foi substituída pela Nova Aliança em Jesus Cristo, revelada a toda a humanidade pelo dom do Espírito Santo. É a Nova Aliança com o Novo Israel.

7 de maio de 2016

Ascensão de Jesus aos Céus



Os apóstolos continuam a missão de Jesus (Act.1,4-36)

Jesus dá as últimas recomendações aos seus discípulos. Jesus diz-lhes que dêem testemunho d'Ele em Jerusalém, toda a Judeia e  Samaria, até aos confins do mundo. E promete-lhes o envio do Espírito Santo que lhes dará força e coragem para levarem a bom termo a missão que lhes confia. Os discípulos regressam a Jerusalém confiantes e cheios de alegria.
Para Lucas a Ascensão de Jesus é o elo de ligação entre o "tempo de Jesus" e o "tempo da Igreja".
No Evangelho de Lucas, a Ascensão é o ponto final da missão terrestre de Jesus (Lc.24,44-53), nos actos dos Apóstolos a Ascensão é o ponto de partida da missão dos apóstolos (Act.1,4-8).

Lucas situa os grandes acontecimentos da missão  de Jesus na cidade de Jerusalém. Segundo o Evangelho, toda a vida de Jesus,  se orienta para esta cidade. É para Jerusalém que converge toda a missão de Jesus, desde a descrição do seu primeiro acto cultual [Apresentação de Jesus no templo (Lc.2,22)], até ao fim da sua missão terrena [Ascensão (Lc.24,50-54)]. Também nos Actos, é nesta cidade que se inicia a missão dos Apóstolos, a Igreja nasce em Jerusalém e vai espalhar-se  até aos confins da terra. O Livro dos Actos termina quando Paulo chega a Roma, a capital do mundo pagão.

29 de abril de 2016

O concílio de Jerusalém


A Igreja primitiva nasceu, como um rebento, do judaísmo. Seus líderes eram judeus, e a Igreja aproveitava da distribuição das sinagogas pelo mundo romano para fazer, com sucesso, a implantatio ecclesiae. Neste ambiente profundamente judaico, surgiu uma certa teologia segundo a qual, para que alguém se salvasse, deveria, necessariamente, participar da Antiga Aliança, circuncidando-se e observando as antigas leis mosaicas. Tal teologia (chamada de judaizante) tinha uma enorme influência entre os cristãos, difundindo-se, a partir de Jerusalém, por todas as demais igrejas locais. O líder desta facção era, ninguém mais, ninguém menos, do que São Tiago, bispo de Jerusalém e figura proeminente da Igreja primitiva.
No entanto, São Paulo liderava os adeptos de uma outra teologia. Contemplando a história da salvação, ele percebeu que, na verdade, Cristo, ao morrer na Cruz, substituiria toda a Lei Antiga por uma Nova Aliança, realizada em Seu preciosíssimo sangue. Era este sangue, e apenas ele, o penhor de nossa salvação, sendo desnecessário (e, em seu entender, inconveniente) que se observassem os antigos rituais judaicos.
A disputa entre as duas facções, aos poucos, foi se acirrando. Discussões sérias ocorriam. Para resolvê-las, a Igreja primitiva, orientada pelo Espírito Santo, convocou aquele que seria o primeiro Concílio de sua história. Reuniram-se, em Jerusalém (note-se que esta era a diocese de São Tiago), todos os Apóstolos e Anciãos e, sob a direcção de São Pedro, se puseram a discutir a questão.
De um lado, Paulo, Barnabé e seus discípulos expunham a sua ideia. De outro, os companheiros de São Tiago se punham a rebatê-las, certamente encorajados pelo fato de que este combate teológico, realizado em Jerusalém, favorecia a vitória dos judaizantes. Fez-se uma discussão. O momento era dramático para São Paulo, que via cada vez mais distante a possibilidade de que sua tese saísse vencedora.
Foi então que Pedro falou. E com que coragem falou Pedro! Não obstante estar em Jerusalém (onde os judaizantes eram maioria), não obstante a venerável presença de São Tiago, o velho São Pedro pronunciou-se, com assombroso destemor, em favor de São Paulo. Como líder da Igreja, ex-catedra, deu a primeira manifestação solene e infalível de que se tem notícia, afirmando que São Paulo tinha razão, e afastando a necessidade de observância da lei mosaica para a nossa salvação. Como era de se esperar, esta definição dogmática e solene até hoje permanece em vigor, e nunca mais os cristãos tiveram dúvidas a respeito. Veja como São Lucas descreveu este discurso em At. 15,7-11.
Depois disto, falou São Tiago. O mesmo, amante da lei mosaica, propôs, então, algumas normas pastorais de nítida influência judaizante. Veja o seu discurso: At.15, 13-21
Não se pode afastar, por completo, a afirmação de que o objectivo de São Tiago era o de salvar um pouco do judaismo que, com a declaração de São Pedro, se transformava em algo ultrapassado para os cristãos. Como católicos, no entanto, devemos acreditar que, ainda que se tratando de normas pastorais, as mesmas foram inspiradas pelo Espírito Santo e eram de observância obrigatória (como as do Concílio Vaticano II). De facto, a observância das mesmas evitava que os judeus se escandalizassem dos cristãos e fechassem, aos mesmos, as portas das sinagogas. Isto permitiu que a implantatio ecclesiae prosseguisse a partir da distribuição geográfica das mesmas. No entanto, por serem normas meramente pastorais, foram deixadas de lado posteriormente, sem que isto implique em qualquer contradição
Este foi o Concílio de Jerusalém. São Paulo, alegre com a decisão de Pedro, e aceitando as normas pastorais, foi a Antioquia dar a notícia para aquela Igreja.

Assim, a fé cristã não está mais ligada ao judaísmo. Ninguém é obrigado a sujeitar-se a uma «transplantação cultural» para ter acesso ao Evangelho. A Igreja torna-se verdadeiramente universal. Não há dúvida de que as duas grandes tendências, a de Paulo e a de Tiago, continuam no interior da Igreja. Uma luta de influência continua, mas Paulo esforça-se por manter a unidade entre os grupos levando a efeito uma colecta em todo o Império a favor dos cristãos de Jerusalém em dificuldade (Gal.2,10; At.24,17)