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3 de maio de 2026

A Escolha dos Sete Diáconos

 

                                                           Parte de um afresco na Capela Nicolina, por Fra Angelico             

Atos 6,1-7
Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus, porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas. Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos e disseram: «Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiarmos esse cargo. Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente à oração e ao ministério da palavra». A proposta agradou a toda a assembleia; e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles. A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente em Jerusalém e obedecia à fé também grande número de sacerdotes.


Em At.6,1 ficamos a saber que a comunidade primitiva era composta por hebreus e helenistas.
Os hebreus eram judeus da região de Jerusalém tornados cristãos, cuja língua era o aramaico (que era a língua mais falada na Palestina a época) e liam a Bíblia em hebraico. Sentiam-se muito arreigados às tradições judaicas, sobretudo relativas ao Templo, as sinagogas e às tradições religiosas. Estes judeus-cristãos, eram muito bem vistos pelo povo e algumas vezes defendidos pelos fariseus.
Os helenistas era também um número considerável de fieis que tinham vivido fora da Palestina, pertenciam à Diáspora. Falavam grego comum, o koiné, liam a Bíblia em grego e estavam menos apegados à Lei de Moisés. Alguns deles sendo de origem pagã convertidos ao judaísmo (prosélitos). São conhecidos por cristão-helenistas.
Através dos sumários ( 2,44; 4,32-34) ficamos a saber que na comunidade primitiva se praticava a entreajuda material. Em 6,1 dá-nos a conhecer uma forma concreta dessa ajuda; a assistência prestada às viúvas.
Já no Antigo Testamento encontramos referências às viúvas e órfãos, como pertencendo às pessoas economicamente e socialmente desfavorecidas. Por isso a Lei previa medidas destinadas a socorrer esta categoria de pobres. E em algumas passagens do Novo Testamento se mostra que essa preocupação está presente nas comunidades cristãs.
É provável que seja esta assistência a que se refere  em 6,1b. Mas essa assistência também se deparava com algumas dificuldades práticas e disso temos conhecimento através 6,1-6, onde se fala do grupo das viúvas helenistas que era negligenciado.
Porque acontecia isto?
Talvez os hebreus em maior número e responsáveis pelo serviço de assistência, tivessem tendência em negligenciar a minoria (seria o facto da igreja primitiva cair no erro habitual das sociedades, que esquecem os direitos dos fracos e minorias, e teria seguido o rumo natural das mentalidades e das relações humanas).
Ou talvez essa diferença mostre a coexistência difícil entre duas mentalidades diferentes; os cristãos de origem judaica e os cristãos helenistas vindos da diáspora.
Fosse qual fosse a ocorrência, uma questão prática de distribuição de assistência ou uma questão mais teológica implicando concepção e mentalidades diferentes, a comunidade primitiva teve que enfrentar também o problema do conflito e teve que enfrentar uma espécie de crise de crescimento.
O fim da crise, tal como é relatado por Lucas, testemunha o funcionamento e a relação existente no interior da comunidade.
Este relato mostra a iniciativa e a autoridade reconhecida aos Doze Apóstolos e a responsabilidade e a participação da comunidade nas tarefas e organização da vida comunitária.
Os  Doze convocam a assembleia (v.2a), que propõem uma solução, motivando (vv 2b-4) e sugerindo o processo a seguir (v3). E são os Doze que consolidam a escolha da comunidade (v6).
A   comunidade aceita a sugestão dos Apóstolos (v5) e escolhe entre eles aqueles que melhor iriam representar o grupo helenista e de seguida apresenta-os aos Doze.


A PRIORIDADE DOS DOZE
Esta solução proposta pelos doze, é fundamentada na necessidade que existe dos apóstolos não «descurar a Palavra de Deus para servirem às mesas» (v2b), mas permanecerem «assíduos à oração e ao serviço da Palavra» (v4).
Vemos aqui a dupla função dos Apóstolos: proferir as orações e fazer catequese.
A pregação apostólica é essencialmente voltada para o exterior. Pois os doze têm que ser testemunhas da ressurreição até aos confins do mundo, não esquecendo o ensino apostólico no Templo e nas casas, tanto junto dos cristãos como dos não-cristãos. Para os Doze trata-se de uma prioridade e apesar disso o outro «serviço», o das mesas,  não é sacrificado.
Não podendo deixar-se encerrar num dilema ou a evangelização ou serviço aos pobres, a fé ou a caridade, a comunidade opta pela sua repartição.

            OS SETE
       Diz-se que a comunidade escolheu então sete homens do grupo dos gregos (Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas, e Nicolau), e os apóstolos encarregaram-nos solenemente da tarefa impondo-lhes as mãos. Os sete homens têm sido considerados como os primeiros diáconos, a ordem clerical encarregada de cuidar dos pobres e doentes na Igreja dos primeiros tempos. Em especial, Estevão e Filipe, desempenharam um papel particularmente ativo nos primeiros tempos do cristianismo.
 


7 de maio de 2016

Ascensão de Jesus aos Céus



Os apóstolos continuam a missão de Jesus (Act.1,4-36)

Jesus dá as últimas recomendações aos seus discípulos. Jesus diz-lhes que dêem testemunho d'Ele em Jerusalém, toda a Judeia e  Samaria, até aos confins do mundo. E promete-lhes o envio do Espírito Santo que lhes dará força e coragem para levarem a bom termo a missão que lhes confia. Os discípulos regressam a Jerusalém confiantes e cheios de alegria.
Para Lucas a Ascensão de Jesus é o elo de ligação entre o "tempo de Jesus" e o "tempo da Igreja".
No Evangelho de Lucas, a Ascensão é o ponto final da missão terrestre de Jesus (Lc.24,44-53), nos actos dos Apóstolos a Ascensão é o ponto de partida da missão dos apóstolos (Act.1,4-8).

Lucas situa os grandes acontecimentos da missão  de Jesus na cidade de Jerusalém. Segundo o Evangelho, toda a vida de Jesus,  se orienta para esta cidade. É para Jerusalém que converge toda a missão de Jesus, desde a descrição do seu primeiro acto cultual [Apresentação de Jesus no templo (Lc.2,22)], até ao fim da sua missão terrena [Ascensão (Lc.24,50-54)]. Também nos Actos, é nesta cidade que se inicia a missão dos Apóstolos, a Igreja nasce em Jerusalém e vai espalhar-se  até aos confins da terra. O Livro dos Actos termina quando Paulo chega a Roma, a capital do mundo pagão.

29 de abril de 2016

O concílio de Jerusalém


A Igreja primitiva nasceu, como um rebento, do judaísmo. Seus líderes eram judeus, e a Igreja aproveitava da distribuição das sinagogas pelo mundo romano para fazer, com sucesso, a implantatio ecclesiae. Neste ambiente profundamente judaico, surgiu uma certa teologia segundo a qual, para que alguém se salvasse, deveria, necessariamente, participar da Antiga Aliança, circuncidando-se e observando as antigas leis mosaicas. Tal teologia (chamada de judaizante) tinha uma enorme influência entre os cristãos, difundindo-se, a partir de Jerusalém, por todas as demais igrejas locais. O líder desta facção era, ninguém mais, ninguém menos, do que São Tiago, bispo de Jerusalém e figura proeminente da Igreja primitiva.
No entanto, São Paulo liderava os adeptos de uma outra teologia. Contemplando a história da salvação, ele percebeu que, na verdade, Cristo, ao morrer na Cruz, substituiria toda a Lei Antiga por uma Nova Aliança, realizada em Seu preciosíssimo sangue. Era este sangue, e apenas ele, o penhor de nossa salvação, sendo desnecessário (e, em seu entender, inconveniente) que se observassem os antigos rituais judaicos.
A disputa entre as duas facções, aos poucos, foi se acirrando. Discussões sérias ocorriam. Para resolvê-las, a Igreja primitiva, orientada pelo Espírito Santo, convocou aquele que seria o primeiro Concílio de sua história. Reuniram-se, em Jerusalém (note-se que esta era a diocese de São Tiago), todos os Apóstolos e Anciãos e, sob a direcção de São Pedro, se puseram a discutir a questão.
De um lado, Paulo, Barnabé e seus discípulos expunham a sua ideia. De outro, os companheiros de São Tiago se punham a rebatê-las, certamente encorajados pelo fato de que este combate teológico, realizado em Jerusalém, favorecia a vitória dos judaizantes. Fez-se uma discussão. O momento era dramático para São Paulo, que via cada vez mais distante a possibilidade de que sua tese saísse vencedora.
Foi então que Pedro falou. E com que coragem falou Pedro! Não obstante estar em Jerusalém (onde os judaizantes eram maioria), não obstante a venerável presença de São Tiago, o velho São Pedro pronunciou-se, com assombroso destemor, em favor de São Paulo. Como líder da Igreja, ex-catedra, deu a primeira manifestação solene e infalível de que se tem notícia, afirmando que São Paulo tinha razão, e afastando a necessidade de observância da lei mosaica para a nossa salvação. Como era de se esperar, esta definição dogmática e solene até hoje permanece em vigor, e nunca mais os cristãos tiveram dúvidas a respeito. Veja como São Lucas descreveu este discurso em At. 15,7-11.
Depois disto, falou São Tiago. O mesmo, amante da lei mosaica, propôs, então, algumas normas pastorais de nítida influência judaizante. Veja o seu discurso: At.15, 13-21
Não se pode afastar, por completo, a afirmação de que o objectivo de São Tiago era o de salvar um pouco do judaismo que, com a declaração de São Pedro, se transformava em algo ultrapassado para os cristãos. Como católicos, no entanto, devemos acreditar que, ainda que se tratando de normas pastorais, as mesmas foram inspiradas pelo Espírito Santo e eram de observância obrigatória (como as do Concílio Vaticano II). De facto, a observância das mesmas evitava que os judeus se escandalizassem dos cristãos e fechassem, aos mesmos, as portas das sinagogas. Isto permitiu que a implantatio ecclesiae prosseguisse a partir da distribuição geográfica das mesmas. No entanto, por serem normas meramente pastorais, foram deixadas de lado posteriormente, sem que isto implique em qualquer contradição
Este foi o Concílio de Jerusalém. São Paulo, alegre com a decisão de Pedro, e aceitando as normas pastorais, foi a Antioquia dar a notícia para aquela Igreja.

Assim, a fé cristã não está mais ligada ao judaísmo. Ninguém é obrigado a sujeitar-se a uma «transplantação cultural» para ter acesso ao Evangelho. A Igreja torna-se verdadeiramente universal. Não há dúvida de que as duas grandes tendências, a de Paulo e a de Tiago, continuam no interior da Igreja. Uma luta de influência continua, mas Paulo esforça-se por manter a unidade entre os grupos levando a efeito uma colecta em todo o Império a favor dos cristãos de Jerusalém em dificuldade (Gal.2,10; At.24,17) 

27 de abril de 2016

Assembleia de Jerusalém


(At.15,35-16,10)
Depois da primeira missão de Paulo, nada volta a ser igual. Não mais se tratava de conversões individuais de pagãos (como aconteceu com o eunuco etíope, Act.8,26-40, ou como no do centurião Cornélio At.10,11-18), mas o de saber qual o lugar a dar na Igreja a todas as comunidades.
Depois de Paulo e Barnabé terem regressado da primeira viagem missionária surgiram problemas entre os cristãos. Alguns cristãos judeus vindos da Judeia chegam a Antioquia e começaram a pregar a necessidade da circuncisão, obrigando Paulo e Barnabé a irem a Jerusalém para resolver o problema com a Igreja, então chefiada pelo Apostolo Tiago (At.15,1-21).
Este relato de Lucas é escrito cerca de 25 anos  após a reunião de Jerusalém.
Lucas apresenta-nos de forma solene esta assembleia onde na confrontação, na escuta e no silêncio a decisão crucial é tomada.
Mas, o debate, caloroso, como acontece e, todas as questões referentes à identidade profunda das pessoas, conheceu várias fases em Antioquia e em Jerusalém (At.15,1-29; Gal. 2,1-10). Os partidários da circuncisão parecem ter-se dividido: Para uns, era indispensável, para outros, um aperfeiçoamento para o baptismo.
Lucas esclarece-nos em Act 15; Paulo explica o seu ponto de vista na sua carta Gal 2,1-10.
Lucas mostra-nos como amadureceu na Igreja uma solução conciliadora; Paulo conservou-nos melhor a atmosfera de tensão que foi a de uma assembleia decisiva para o futuro da Igreja.

20 de abril de 2016

Primeira Viagem missionária


Percurso: Antioquia – Chipre – Panfília – Antioquia da Pisidia – Licaónia – Antioquia (Act. 13-14)


A cidade de Antioquia tem um lugar muito importante na vida missionária de Paulo. É aí, que ele encontra uma comunidade bilingue formada por judeus e pagãos convertidos. É aí que toma consciência da necessidade de urgente de pregar em países de língua grega.
Antioquia principal cidade da Síria (ver H.I.XII),  será o ponto de partida para todas as grandes viagens apostólicas e o ponto de chegada para dar acção de graças pela expansão do Evangelho, juntamente com os irmãos na fé.
 O itinerário de Paulo foi determinado pelo Espírito Santo, mas o facto de Barnabé ser cipriota talvez explique a razão de ser Chipre o primeiro porto a que acostaram nesta primeira viagem.
A ilha de Chipre, pátria de Barnabé, (Act.4,36), tinha uma comunidade judaica importante. Paulo tem um primeiro contacto com um acolhedor magistrado romano, o procônsul Sérgio Paulo. Mas também tem que enfrentar-se com um mago de origem judaica, Elimas (13,8). Nessa época havia grande atracção pelas ciências ocultas. Os homens insatisfeitos interiormente voltavam-se para o culto dos mistérios e «mergulhavam», por assim dizer, na magia.
A província da Panfília tinha muitas cidades importantes, e foi em Perga, uma dessas cidades, que Paulo desembarcou juntamente com Barnabé e João Marcos. Contudo, Paulo decidiu avançar para o interior, tendo seguido somente com Barnabé, por ter faltado a coragem ao jovem João Marcos para os acompanhar por caminhos, talvez, agrestes, talvez, perigosos. Seguem até à Pisídia, onde encontram muitas colónias judaicas.
A narração relativa a Antioquia da Pisídia (13,16-41) tem um valor típico. Permite-nos compreender como é que Paulo pregava, que acolhimento recebia e que cisões provocava a sua mensagem. É aqui que Paulo faz o seu primeiro grande discurso.
Lucas dá muita importância a este discurso, feito na sinagoga. Há um certo paralelismo entre o discurso programático de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc.4,18-27) e a pregação de Paulo nesta sinagoga. Em Nazaré, Jesus dirige-se a um público só judeu, Paulo a um público misto, formado por judeus e prosélitos.
O sucesso de Paulo junto dos prosélitos gerou a oposição violenta dos judeus (v.45). Paulo vê nisso o sinal indicado por Deus para a evangelização dos pagãos. Os judeus invejosos expulsam Paulo e Barnabé. Percorrem, então, as cidades da Licaónia, onde os judeus lhes fazem sentir as mesmas dificuldades. Contudo, em Listra acontece-lhes uma aventura singular. Em consequência da cura  de um paralítico, Barnabé  e Paulo são tomados por deuses, Zeus o deus do Olimpo e Hermes o seu porta-voz. Quando Paulo repara no sacrifício que preparam em sua honra, reage com indignação.
Apesar do milagre e aproveitando-se da decepção da multidão perante a recusa de Paulo, o judeus fomentam uma desordem contra ele. Paulo é apedrejado e quase morto. No dia seguinte partem para Derbe, depois de aí anunciarem a Boa Nova, Paulo e Barnabé regressam a Antioquia.

Esta primeira missão marca a grande expansão do Evangelho. Passa para além das fronteiras da Palestina, a Boa Nova chega às ilhas de Chipre e penetra no alto planalto da Anatólia.

15 de abril de 2016

Missão de Paulo e Barnabé na Ásia



A partir do capítulo 13 dos Atos dos Apóstolos, começa uma nova etapa na vida da comunidade cristã. Até aqui, Lucas centrava os acontecimentos em Pedro. Daqui em diante, Pedro vai desaparecendo progressivamente da sua narração e surge Paulo que passa a estar em lugar de destaque.
Paulo chamado o apóstolos dos gentios, percorreu muitos lugares, conheceu muitas gentes, levou o Evangelho até aos confins do mundo.
As viagens de Paulo levaram-no a percorrer as províncias romanas, numa época em que o império atingira quase a sua maior extensão e tinha-se criado um estado pacífico e estável com os reinados dos imperadores Augusto, Tibério e Cláudio. 
Viajar no interior do Império era fácil e seguro, graças ao sistema de estradas pavimentadas que ligavam as províncias e cidades principais, bem como às diversas rotas marítimas. Toda esta mobilidade era factor de desenvolvimento na zona mediterrânica. Paulo e os seus companheiros viajaram muitas vezes por estrada e por mar, servindo-se destas vias romanas.
Segundo os Actos, Paulo contactava frequentemente com os organismos de administração romana. Como cidadão romano manteve conversações com altos funcionários do império, como Galião, o procônsul de Acaia; o estadista e filosofo  Séneca (At. 18); Sérgio Paulo, o procônsul de Chipre (At 13); entre outros procuradores, governadores de província e administradores locais.
Paulo levou o Evangelho principalmente às cidades de língua grega do Mediterrâneo Oriental, e foi aí que o cristianismo se implantou com mais êxito.
Antioquia será o ponto de partida para todas as grandes viagens apostólicas de Paulo, e aí voltará sempre para dar acção de graças pela expansão do Evangelho.
A Igreja chegou a Antioquia levada pelos judeus helenistas depois da perseguição que levou à morte de Estêvão. Os helenistas foram expulsos de Jerusalém e estabeleceram-se em Antioquia. Aí pregam e convertem muitos gregos. A Igreja começava a crescer fora de Jerusalém. Este crescimento chega até aos ouvidos dos apóstolos que decidem enviar Barnabé para constatar a evangelização. Ele reconhece a obra de Deus e vai procurar Paulo a Tarso para ambos animarem esta comunidade durante um ano.
Mas Barnabé e Paulo não ficaram por aqui, vão ser protagonistas de uma etapa decisiva na expansão da Igreja através de uma missão na Ásia Menor. E é o Espírito Santo que toma directamente a iniciativa. (At.13,2) e os envia em missão. É Deus que age com eles.  Durante uma vigília de oração, o Espírito Santo pede à Igreja  que envie Barnabé Paulo em missão (v.2).

A cerimónia da saída em missão é marcada por uma imposição colectiva das mãos. Toda a comunidade se sente solidária com os missionários.

8 de abril de 2016

Os primeiros cristãos



A forma de viver dos primeiros cristãos agradava ao povo, pois tinham grande simpatia por eles. E todos os milagres e prodígios que os Apóstolos realizavam, faziam aumentar o número de crentes.
Mas nem todos estavam satisfeitos com esta situação.
Os primeiros cristãos são judeus. Continuam a comportar-se como judeus (vão ao Templo, respeitam o Sábado, cumprem a Lei, fazem a circuncisão). Mas formam um grupo à parte.
Nesse tempo no judaísmo havia muitas correntes: os saduceus, os fariseus, os zelotes, os assénios,...

Saduceus pertenciam uma situação social mais elevada. Eram influentes, todos os cargos de importância nacional quer de estado ou religião, estavam nas suas mãos. O seu comportamento era materialista. Conservadores no que respeita às ideias religiosas, eram fechados à novidade

Fariseus pertenciam à classe média. Não tinham muito dinheiro, mas possuíam o saber e o povo via neles os seus guias espirituais Eram especialistas e fieis à Lei. Estavam abertos a novas ideias esta atitude fez com que certos fariseus favorecessem o desenvolvimento da primeira comunidade de Jerusalém.

O Sinédrio - Era o conselho (ou colégio) dos mais altos magistrados do povo de Israel. Era constituído por 71 membros, pertencentes a três classes de pessoas: os anciãos (representantes da aristocracia laica), os Sumo Sacerdotes normalmente saduceus) e alguns escribas (fariseus). Era presidido pelo Sumo Sacerdote, reunia duas vezes por semana. Gozava de poder político, judicial e religioso.

O Templo de Jerusalém - é o centro de toda a religiosidade e de toda a vida do povo judeu. Era o centro comercial e financeiro de Jerusalém, por causa do grande movimento de peregrinos e centro de encontro de todos os judeus procedentes tanto da Palestina como da Diáspora. Constituía assim a sede da suprema autoridade política e religiosa entre os judeus.

No seu ensino, os apóstolos denunciavam a morte de Jesus, pondo em causa o julgamento feito pelos sumos sacerdotes, os quais tinham condenado Jesus à morte. Esta forma de anunciar opõem-se à maneira de ver dos saduceus, que consideram esta acção perigosa. Então a reacção não se fez esperar. Os Apóstolos são presos, intimidados, açoitados e proibidos de ensinar, talvez com receio do povo, são postos de novo em liberdade. Mas eles não desistem. Continuam a ensinar no Templo (espaço dos judaico) e nas casas (novo espaço dos cristãos). E assim o número dos crentes não parava  aumentar.
Ao longo doa Actos dos Apóstolos encontramos muitas perseguições:

Os Apóstolos eram presos, o que em vez dos enfraquecer aumentava a sua audácia e em vez de produzir medo aumentava o número de crentes.

6 de abril de 2016

As perseguições aos Apóstolos


Os Atos contam muitas vezes as perseguições dos Apóstolos e dos crentes de Jesus Cristo. A primeira teve lugar depois da cura do doente na porta Formosa do Templo (At.4,1-31). A Segunda é evocada no texto, sobre o qual nos debruçamos mais acima, (At.5, 17-42).
Mas Lucas não se limita a contar as perseguições, indica o seu sentido e a sua eficácia.
-           Os Apóstolos são presos, não ficam lá. São libertados quer pela decisão do tribunal (Sinédrio), quer por acontecimentos extraordinários, que Lucas apresenta como intervenção do Anjo do Senhor (At.5,17-20;  12,7-10;  16,25-26).
-           A perseguição em vez de enfraquecer os apóstolos aumenta a sua audácia. Ficam felizes por terem sofrido por Jesus Cristo. Apesar de correrem o risco de serem de novo presos, não desistem e continuam a anunciar a Boa Nova de Cristo.
-           A perseguição poderia ter provocado medo e diminuir o número dos crentes em Jesus Cristo, mas Lucas mostra o contrário, o número aumentava cada vez mais (At. 5,14).

Os cristãos aos quais Lucas se dirige, por volta do ano 80, já sofreram ou ouviram falar de perseguições pelas autoridades judaicas e romanas. A narração de Lucas fá-los ganhar coragem para enfrentar novas perseguições e continuarem cada vez mais audazes a «ensinar e anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo».

1 de maio de 2008

Dia da Ascensão

Actos 1,1-11

O livro Actos dos Apóstolos começa com um prólogo (vers. 1-2) que relaciona os “Actos” com o Evangelho de Lucas– quer na referência ao mesmo Teófilo a quem o Evangelho era dedicado, quer na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua acção no mundo (tema central do mesmo Evangelho). Neste prólogo são, também, apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus.Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus” . O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.As palavras de despedida de Jesus (vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. Na realidade, trata-se do programa que Lucas vai apresentar ao longo do livro, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Evidentemente, esta passagem necessita de ser interpretada para que, através da roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a claridade.Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico (não é o “repórter”, mas sim o “teólogo” a falar): a ascensão é uma forma de expressar simbolicamente que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai.Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra, a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projecto de libertação do homem e do mundo.Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor.O sentido fundamental da ascensão, não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o caminho de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projecto de salvação no meio do mundo. (Adap. Eclesia.pt)

«Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra».

26 de abril de 2008

Depois da Ressurreição VIII

Pedro e João na Samaria (Actos 8)
A segunda parte deste relato mostra a autoridade especial dos Apóstolos.
Nos Actos, o baptismo na água e o dom do Espírito Santo estão intimamente associados, mas não são idênticos: havia pessoas que podiam baptizar, mas só os Apóstolos, representados por Pedro e João, podiam conceder o Espírito Santo, o que faziam pondo as mãos sobre os convertidos samaritanos (8,16-17).

Nos samaritanos, o equivalente do «Pentecostes», no que se refere à manifestação extraordinária do Espírito, deu-se no momento da imposição das mãos por Pedro e João. Não se trata de falar em línguas nem doutros sinais exteriores espectaculares. Mas 8,18 deixa-se entender que algo semelhante aconteceu, pois Simão pôde «ver que o Espírito Santo era dado pela imposição das mãos dos Apóstolos».

Enquanto em Act.2 e 10, o Espírito Santo vem primeiro sobre um grupo antes de ser recebido por cada um no baptismo, em Act. 8,16, o processo é inverso. Certas pessoas foram primeiro baptizadas por Filipe e só depois, graças à imposição das mãos dos apóstolos, fazem colectivamente a experiência de uma manifestação do Espírito Santo, semelhante à do Pentecostes.

Talvez a manifestação extraordinária em Act. 8, para além de marcar a inauguração da missão e da implantação da Igreja em novas etapas, tenha um outro significado, relativo ao grupo apostólico. Talvez confirme a importância que Lucas atribui ao grupo dos Doze.

Quanto a Simão, o Mago, «viu» que Pedro e João tinham o poder de conceder o Espírito Santo, tentou adquirir o mesmo poder para si próprio (8, 18-19) ( daqui o termo simonia, para designar a compra ou venda de um cargo espiritual ou coisas santas ). Pedro aplicou um castigo severo a Simão pela sua presunção, embora nos Actos se afirme que Simão se arrependeu (8,20-24).

24 de abril de 2008

Depois da Ressurreição VII


Filipe leva o Evangelho à Samaria
Após ter apresentado em 2,1-41 o nascimento da Igreja em Jerusalém, Lucas descreve a seguir , até ao fim do capítulo 7, como se exerce aí o testemunho apostólico, como realização da primeira etapa anunciada em 1,8:«Sereis minhas testemunhas em Jerusalém».
O capítulo 8 dá-nos conta do conjunto da actividade missionária desenvolvida fora de Jerusalém.
Para Lucas a morte de Estevão e a perseguição que se lhe seguiu tiveram consequências positivas: o anunciar do evangelho desde Jerusalém até à Judeia e à Samaria.
Com efeito, a «etapa Jerusalém» está terminada, como explica o início do capítulo 8. Perseguida, a Igreja de Jerusalém tem de dispersar «pelas terras da Judeia e Samaria» (8,1).
A evangelização encontra nesta dispersão a oportunidade de se estender fora de Jerusalém. Tendo os Apóstolos ficado aí (8,1b), a evangelização será feita no princípio sem eles. Na Judeia e na Samaria, é Filipe, um dos Sete mandatados pelos apóstolos, que terá o papel central. A maior parte de Act.8 descreve a sua actividade missionária.
Filipe pregou numa «cidade da Samaria» (8,5), diz-se que fez muitas curas em Samaria (8,4-7), os habitantes desta região eram particularmente receptivos a esse tipo de milagres, pois durante algum tempo tinham-se deixado cativar por um praticante de artes mágicas, ou mago, chamado Simão (8,9). Os samaritanos viam em Simão, o Mago, poderes divinos, mas as curas feitas por Filipe foram mais numerosas e impressionantes o que fez com que muitos se convertessem. Também Simão acreditou em Filipe e na Boa Nova do Reino de Deus, tendo-se convertido e recebeu o baptismo juntamente com homens e mulheres da região.(8,12-13).

19 de abril de 2008

Depois da Ressurreição VI

Instituição dos Sete (Act.6, 1-7)
Os Doze convocam a assembleia (v.2a), que propõem uma solução, motivando (vv 2b-4) e sugerindo o processo a seguir (v3). E são os Doze que consolidam a escolha da comunidade (v6).
A comunidade aceita a sugestão dos Apóstolos (v5) e escolhe entre eles aqueles que melhor iriam representar o grupo helenista e de seguida apresenta-os aos Doze.
Este episódio, como podemos constatar, centra-se alternadamente na comunidade e nos Doze Apóstolos.
6,1 A comunidade dá conta da situação crítica.
6,2-4 Os doze sugerem uma proposta de solução.
6,5 A comunidade aceita a proposta e executa-a.
6,6 Os doze confirmam e executam a escolha.


A prioridade dos dozeEsta solução proposta pelos doze, é fundamentada na necessidade que existe dos apóstolos não «descurar a Palavra de Deus para servirem às mesas» (v2b), mas permanecerem «assíduos à oração e ao serviço da Palavra» (v4).
Vemos aqui a dupla função dos Apóstolos: proferir as orações e fazer catequese.
A pregação apostólica é essencialmente voltada para o exterior. Pois os doze têm que ser testemunhas da ressurreição até aos confins do mundo, não esquecendo o ensino apostólico no Templo e nas casas, tanto junto dos cristãos como dos não-cristãos. Para os Doze trata-se de uma prioridade e apesar disso o outro «serviço», o das mesas, não é sacrificado.
Não podendo deixar-se encerrar num dilema ou a evangelização ou serviço aos pobres, a fé ou a caridade, a comunidade opta pela sua repartição.


Os Sete
A comunidade escolheu então sete homens do grupo dos gregos (Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas, e Nicolau), e os apóstolos encarregaram-nos solenemente da tarefa impondo-lhes as mãos*. Os sete homens têm sido considerados como os primeiros diáconos**, a ordem clerical encarregada de cuidar dos pobres e doentes na Igreja dos primeiros tempos. Em especial, Estevão e Filipe, desempenharam um papel particularmente activo nos primeiros tempos do cristianismo.


*Imposição das mãos, este gesto com raízes no Antigo Testamento, ocorre muitas vezes nos Actos como:
- Introdução num ministério da comunidade (6,6)
- Transmissão do Espírito em ligação com o baptismo (19,6)
- No momento de alguma cura (28,8)
- No envio em missão (13,3)

**Diácono, nome que radica da palavra diakonia que quer dizer serviço.

17 de abril de 2008

Depois da Ressurreição V


Instituição dos Sete Diáconos

Os sumários que vamos encontrando ao longo dos Actos dos Apóstolos, dão-nos a imagem de uma vida comunitária em perfeita harmonia. Nos primeiros cinco capítulos, apenas o episódio de Ananias e Safira ensombra a vida desta comunidade.
A partir do capítulo VI encontramos alguns episódios que perturbam essa harmonia. O primeiro dá-se no interior da comunidade (Act.6, 1-7).
Em Act.6,1 ficamos a saber que a comunidade primitiva era composta por hebreus e helenistas.
Os hebreus eram judeus da região de Jerusalém tornados cristãos, cuja língua era o aramaico (que era a língua mais falada na Palestina a época) e liam a Bíblia em hebraico. Sentiam-se muito arreigados às tradições judaicas, sobretudo relativas ao Templo, as sinagogas e às tradições religiosas. Estes judeus-cristãos, eram muito bem vistos pelo povo e algumas vezes defendidos pelos fariseus.
Os helenistas era também um número considerável de fieis que tinham vivido fora da Palestina, pertenciam à Diáspora. Falavam grego comum, o koiné, liam a Bíblia em grego e estavam menos apegados à Lei de Moisés. Alguns deles sendo de origem pagã convertidos ao judaísmo (prosélitos). São conhecidos por cristão-helenistas.
Através dos sumários ( 2,44; 4,32-34) ficamos a saber que na comunidade primitiva se praticava a entreajuda material. Em 6,1 dá-nos a conhecer uma forma concreta dessa ajuda; a assistência prestada às viúvas.
Já no Antigo Testamento encontramos referências às viúvas e órfãos, como pertencendo às pessoas economicamente e socialmente desfavorecidas. Por isso a Lei previa medidas destinadas a socorrer esta categoria de pobres. E em algumas passagens do Novo Testamento se mostra que essa preocupação está presente nas comunidades cristãs.
É provável que seja esta assistência a que se refere em 6,1b. Mas essa assistência também se deparava com algumas dificuldades práticas e disso temos conhecimento através 6,1-6, onde se fala do grupo das viúvas helenistas que era negligenciado.
Porque acontecia isto?
Talvez os hebreus em maior número e responsáveis pelo serviço de assistência, tivessem tendência em negligenciar a minoria (seria o facto da igreja primitiva cair no erro habitual das sociedades, que esquecem os direitos dos fracos e minorias, e teria seguido o rumo natural das mentalidades e das relações humanas).
Ou talvez essa diferença mostre a coexistência difícil entre duas mentalidades diferentes; os cristãos de origem judaica e os cristãos helenistas vindos da diaspóra.
Fosse qual fosse a ocorrência, uma questão prática de distribuição de assistência ou uma questão mais teológica implicando concepção e mentalidades diferentes, a comunidade primitiva teve que enfrentar também o problema do conflito e teve que enfrentar uma espécie de crise de crescimento.
O fim da crise, tal como é relatado por Lucas, testemunha o funcionamento e a relação existente no interior da comunidade.
Este relato mostra a iniciativa e a autoridade reconhecida aos Doze Apóstolos e a responsabilidade e a participação da comunidade nas tarefas e organização da vida comunitária.

10 de abril de 2008

Depois da Ressurreição IV

O autor dos Actos dos Apóstolos
Desde de sempre a tradição da Igreja atribui a S. Lucas a autoria deste Livro. Desde o século II se reconhece em Lucas o "caríssimo" médico (Col.4,-14), o "colaborador" (Flm 24) que acompanha Paulo.
Quem era São Lucas?
Parece ter sido um pagão que se converteu ao cristianismo, talvez originário de Antioquia da Síria.
Culto, maneja com uma certa elegância a língua grega, tem o gosto pela clareza.
Convertido ainda jovem, não foi testemunha ocular da vida de Jesus Cristo.
Acompanhou S. Paulo em muitas das suas viagens à Macedónia, a Jerusalém e a Roma. Possivelmente esteve com o apóstolo até à sua morte em Roma, por volta de 64 d.C.
Depois da morte de S. Paulo, pregou o Evangelho na Botínia e na Acaia.
Cerca dos anos 80, decidiu escrever a sua obra em dois volumes, dando um relato histórico e teológico da vida de Jesus Cristo (Evangelho S. Lucas) e das origens da Igreja (Actos dos Apóstolos). Lucas no seu primeiro livro descreve a expansão da Boa Nova, a manifestação de Jesus começa em Nazaré (Lc.4,16) e termina em Jerusalém (Lc.24, 49). Enquanto que nos Actos dos Apóstolos o anúncio da Boa Nova faz-se a partir de Jerusalém (Act.2 - 8,3), passando depois a toda a Palestina (Act. 8,4 -12,25) e propagando-se pela Ásia Menor, Grécia, até chegar a Roma (Act. 13,1 - 28, 30).
Os seus textos são de uma grande delicadeza para com Jesus, os pobres, as mulheres e os pecadores.
Gosta de interromper os seus relatos com sumários nos quais resume os aspectos que deseja ver fixados. (Act. 2,42-47; 4,32-35; 5,12 -15;...)
Bom historiador, tem o cuidado de situar os acontecimentos na história. Mas é um historiador crente: o que narra é uma boa nova que descobriu e quer partilhar com os outros.
Não se sabe para que comunidade é que escreveu, mas facilmente se pode deduzir em que tipo de Igreja a sua mensagem se formou. Comunidade nascida em território pagão, como as de Antioquia ou de Filipos.
Estes cristãos são antigos pagãos e sabem que é por graça e não por nascimento que são recebidos na aliança de Deus com Israel.
Eles fizeram a experiência do Espírito: as suas igrejas nasceram fora do círculo de Jerusalém, nasceram pela Palavra e pelo Espírito Santo.

4 de abril de 2008

Depois da Ressurreição III

ACTOS DOS APÓSTOLOS
Os Actos dos Apóstolos é a continuação de outra obra do mesmo autor, o Evangelho de S. Lucas. No Evangelho de S. Lucas relata-se a vida terrena de Jesus até à Sua ascensão; nos Actos dos Apóstolos começando com a ascensão (Act.1,1-11), relata-se a presença de Jesus através do Espírito Santo, que influi em todos os actos dos apóstolos e de quantos aderiram à fé cristã.
Em todo o relato dos Act. Apóstolos destacam-se como personagens principais os apóstolos Pedro e Paulo, mas o verdadeiro protagonista é o Espírito Santo, que ilumina e guia, no curso da história da humanidade, a Igreja de Jesus Cristo.
Os acontecimentos relatados neste livro, abrem o caminho para o projecto que a Igreja de todos os tempos tem para realizar: Anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo a toda a humanidade até aos lugares mais distantes do mundo. Podemos dividir este livro em três partes:

1ª Fundação da Igreja de Jerusalém depois da ascensão de Jesus (Act. 1,1 - 8,3).

2ª Difusão da Boa Nova por toda a Palestina (Act. 8,4 - 12,25)

3ª Propagação da fé cristã por todo o mundo mediterrânico até Roma (13, 1 - 28,30)

31 de março de 2008

Depois da Ressurreição II

A Ressurreição de Jesus (Act.1,1-3)


No primeiro dia da semana (Domingo para os cristãos), Maria e Maria Madalena, mulheres que acompanharam Jesus na hora da Sua Paixão e Morte, vão até ao sepulcro e encontram-no vazio e escutam "Não está aqui, Ressuscitou" (Lc.24, 1-12). Partiram e foram anunciar aos outros discípulos. Jesus continuava vivo.
E não temos apenas o sepulcro vazio a testemunhar a Ressurreição de Jesus. Porque a Ressurreição de Jesus não é uma invenção dos apóstolos e dos cristãos dos primeiros tempos, é algo que merece todo o crédito, pois foi testemunhada por muitas pessoas em diversas circunstâncias, através das aparições. Lucas fala-nos do encontro com os discípulos de Emaús (Lc.24,13-35), mais tarde aparece no meio dos apóstolos (Lc.24,36-43). Também os outros evangelistas registam outras aparições antes de Jesus subir aos céus.
Podemos situar Jesus no tempo e encontramo-nos perante factos que são históricos.

É histórico:
- que enquanto Pôncio Pilatos era governador da Judeia, um homem chamado Jesus, pregou, foi seguido por discípulos e foi condenado à morte.
- que esses discípulos proclamavam que Jesus estava vivo, que ele é o Filho de Deus,
- que muitos morreram, foram lançados às feras, porque não queriam negar essa verdade.

Isto é histórico e não há ninguém de boa fé que o possa desmentir. Mas aceitar isto não é ter fé. Pois qualquer pessoa pode chegar até aqui. Agora acreditar nesses discípulos, reconhecer como eles que Jesus Ressuscitou está vivo e que nos dá a vida, isto é acreditar, isto é ter fé.
Os escritos do Novo Testamento mostram-nos a fé desses primeiros cristãos. Eles anunciam aquilo que se passou no seu tempo como uma "Boa Nova" que transformou a vida deles. É esta fé que vamos procurar descobrir através de seu testemunho.
É importante sabermos que os Evangelhos não são uma "reportagem em cima do acontecimento" da vida de Jesus e que os discípulos não fundaram a Igreja a partir dos Evangelhos. Sabemos que não aconteceu assim. Jesus morreu por volta do ano 30 e os evangelhos só muito mais tarde foram escritos (entre o ano 70 e 95). Entre a morte de Jesus e o aparecimento dos escritos dos Evangelistas há a experiência da vida da Igreja primitiva. Isto quer dizer que os escritos nasceram da vivência da Igreja (a comunidade dos discípulos) e não o contrário.
Esta Igreja tem consciência que é o novo povo de Deus, que nasce pela Palavra de Jesus Cristo e que é animada pelo Espírito Santo. A Igreja vive Jesus Ressuscitado, e é esta vida que ela descobre, interpreta e põe por escrito. E é através desta fé da Igreja primitiva que nos é dado a conhecer Jesus.
Para melhor conhecer a Igreja para partir à descoberta do Novo Testamento e para melhor o entendermos devemos começar pelo livro dos "Actos dos Apóstolos".

28 de março de 2008

Uma comunidade modelo

A primeira comunidade (Act. 2,42-47)


Lucas regista que depois do discurso de Pedro (Act:2,1-41), feito no dia de Pentecostes, cerca de 3000 pessoas acolheram a sua palavra e receberam o baptismo.
Logo de seguida, dá-nos um resumo sobre o modo como esses primeiros cristãos viviam em comunidade.

Nos Actos do Apóstolos podemos encontrar três sumários sobre o modelo de vida cristã, são eles: 2,42-47; 4,32-35 e 5,12-14.
Estes sumários podem servir como ponto de "referência" aos cristãos de todos os tempos.
O primeiro (2,42-47) é, como que, um "sumário dos sumários", pois, nele se encontra de forma resumida, os sete elementos fundamentais presentes nos restantes sumários, de uma forma mais condensada.
Estes elementos são componentes da vida comunitária sentidas no seu interior (assíduos ao ensino dos apóstolos; união fraterna; fracção do pão; oração) e componentes relativas ao impacto exterior (favor junto do povo; sinais e prodígios; aumento em número).

As quatro "fidelidades" que guia a vida desta comunidade, impressionam os outros e suscitam admiração.

26 de março de 2008

Depois da Ressurreição


Durante o Tempo Pascal a 1ª Leitura é retirada dos ACTOS DOS APOSTOLOS, é o livro do Novo Testamento que melhor nos mostra as primeiras comunidades.
É por este livro que deveríamos começar a leitura do Novo Testamento. Foi escrito por volta do ano 80, o seu autor é LUCAS, e dá-nos a conhecer os primeiros 30 anos da Igreja.
Através do livro dos ACTOS DOS APOSTOLOS assistimos ao nascimento das primeiras comunidades cristãs; a sua caminhada de evolução, as suas aventuras, os seus contratempos, a fé que os unia, a esperança que não os abandonava.
As primeiras comunidades cristãs nascem do "convívio" dos apóstolos com Jesus Cristo. Jesus escolheu doze a quem chamou de apóstolos, "enviados".
No momento de se elevar aos céus, Jesus deixa uma missão aos apóstolos. (ler: Act.1,8)
"Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo" (Act. 1,8)

Primeira comunidade cristã - JERUSALÉM
Depois da morte de Judas o grupo dos apóstolos ficou reduzido a onze. Sentiram necessidade de repor o número de doze (é um número simbólico que representa as doze tribos de Israel ), escolheram Matias, tirando à sorte conforme era costume. Esta escolha foi feita entre discípulos que tinham testemunhado todo o ministério de Jesus.

É destes doze apóstolos que se vai formar a primeira comunidade cristã de Jerusalém e que mais tarde se irá espalhar por todo o mundo.

Nos primeiros dias estes cristão viviam com grandes receios e refugiavam-se em oração constante. Com eles estavam outros discípulos, juntamente com Maria, mãe de Jesus, que desde o primeiro momento esteve sempre presente.

19 de abril de 2007

As perseguições dos Apóstolos


Os Actos contam muitas vezes as perseguições dos Apóstolos e dos crentes de Jesus Cristo. A primeira teve lugar depois da cura do doente na porta Formosa do Templo (Act.4,1-31). A Segunda é evocada no texto, sobre o qual nos debruçamos mais acima, (Act.5, 17-42).

Mas Lucas não se limita a contar as perseguições, indica o seu sentido e a sua eficácia.

- Os Apóstolos são presos, não ficam lá. São libertados quer pela decisão do tribunal (Sinédrio), quer por acontecimentos extraordinários, que Lucas apresenta como intervenção do Anjo do Senhor (Act.5,17-20; 12,7-10; 16,25-26).


- A perseguição em vez de enfraquecer os apóstolos, aumenta a sua audácia. Ficam felizes por terem sofrido por Jesus Cristo. Apesar de correrem o risco de serem de novo presos, não desistem e continuam a anunciar a Boa Nova de Cristo.

- A perseguição poderia Ter provocado medo e diminuir o número dos crentes em Jesus Cristo. Lucas mostra o contrário. O número aumentava cada vez mais (Act. 5,14).

Os cristãos aos quais Lucas se dirige, por volta do ano 80, já sofreram ou ouviram falar de perseguições pelas autoridade judaicas e romanas. A narração de Lucas fá-los ganhar coragem para enfrentar novas perseguições e continuarem cada vez mais audazes a «ensinar e anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo».