(Jo 10, 1-10) Naquele tempo, disse Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador. Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. O porteiro abre-lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva-as para fora. Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem, caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos». Jesus apresentou-lhes esta comparação, mas eles não compreenderam o que queria dizer. Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».
O Evangelho deste domingo insere-se numa controvérsia que Jesus mantém com os líderes religiosos, em continuidade com o capítulo 9. Com uma linguagem metafórica, o evangelista combina imagens pastorais com afirmações cristológicas. A figura do pastor remete para Isaías 34, onde os dirigentes infiéis de Israel são denunciados como pastores negligentes. Neste contexto, Jesus apresenta-se em contraste com eles. O acesso legítimo ao redil, pela porta, simboliza uma relação autêntica e reconhecida com as ovelhas. A distinção entre o pastor e o ladrão constitui uma crítica a formas ilegítimas de liderança. O conhecimento mútuo entre pastor e ovelhas exprime uma relação baseada no reconhecimento e na confiança, e não na coerção. No versículo 7, a metáfora é reformulada, introduzindo uma mudança: Jesus não é apenas o pastor, mas também a porta. Esta sobreposição de imagens é característica do estilo joanino e sublinha a função mediadora de Jesus. O acesso à vida passa exclusivamente por Ele. O objetivo da ação do pastor é a vida em abundância, uma categoria central do quarto evangelho. Esta vida não se identifica com prosperidade material, mas com a participação na vida que provém de Deus. A Páscoa não é mencionada explicitamente, mas está subjacente como pressuposto, pois é a partir da morte e ressurreição de Jesus que se pode compreender plenamente a sua identidade como mediador de vida e garante do acesso à vida divina.