Parte de um afresco na Capela Nicolina, por Fra Angelico
Os hebreus eram judeus da região de Jerusalém tornados cristãos, cuja língua era o aramaico (que era a língua mais falada na Palestina a época) e liam a Bíblia em hebraico. Sentiam-se muito arreigados às tradições judaicas, sobretudo relativas ao Templo, as sinagogas e às tradições religiosas. Estes judeus-cristãos, eram muito bem vistos pelo povo e algumas vezes defendidos pelos fariseus.
Já no Antigo Testamento encontramos referências às viúvas e órfãos, como pertencendo às pessoas economicamente e socialmente desfavorecidas. Por isso a Lei previa medidas destinadas a socorrer esta categoria de pobres. E em algumas passagens do Novo Testamento se mostra que essa preocupação está presente nas comunidades cristãs.
É provável que seja esta assistência a que se refere em 6,1b. Mas essa assistência também se deparava com algumas dificuldades práticas e disso temos conhecimento através 6,1-6, onde se fala do grupo das viúvas helenistas que era negligenciado.
Porque acontecia isto?
Talvez os hebreus em maior número e responsáveis pelo serviço de assistência, tivessem tendência em negligenciar a minoria (seria o facto da igreja primitiva cair no erro habitual das sociedades, que esquecem os direitos dos fracos e minorias, e teria seguido o rumo natural das mentalidades e das relações humanas).
Ou talvez essa diferença mostre a coexistência difícil entre duas mentalidades diferentes; os cristãos de origem judaica e os cristãos helenistas vindos da diáspora.
Fosse qual fosse a ocorrência, uma questão prática de distribuição de assistência ou uma questão mais teológica implicando concepção e mentalidades diferentes, a comunidade primitiva teve que enfrentar também o problema do conflito e teve que enfrentar uma espécie de crise de crescimento.
O fim da crise, tal como é relatado por Lucas, testemunha o funcionamento e a relação existente no interior da comunidade.
Este relato mostra a iniciativa e a autoridade reconhecida aos Doze Apóstolos e a responsabilidade e a participação da comunidade nas tarefas e organização da vida comunitária.
Os Doze convocam a assembleia (v.2a), que propõem uma solução, motivando (vv 2b-4) e sugerindo o processo a seguir (v3). E são os Doze que consolidam a escolha da comunidade (v6).
A comunidade aceita a sugestão dos Apóstolos (v5) e escolhe entre eles aqueles que melhor iriam representar o grupo helenista e de seguida apresenta-os aos Doze.
A pregação apostólica é essencialmente voltada para o exterior. Pois os doze têm que ser testemunhas da ressurreição até aos confins do mundo, não esquecendo o ensino apostólico no Templo e nas casas, tanto junto dos cristãos como dos não-cristãos. Para os Doze trata-se de uma prioridade e apesar disso o outro «serviço», o das mesas, não é sacrificado.
Não podendo deixar-se encerrar num dilema ou a evangelização ou serviço aos pobres, a fé ou a caridade, a comunidade opta pela sua repartição.
OS SETE
Diz-se que a comunidade escolheu então sete homens do grupo dos gregos (Estevão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas, e Nicolau), e os apóstolos encarregaram-nos solenemente da tarefa impondo-lhes as mãos. Os sete homens têm sido considerados como os primeiros diáconos, a ordem clerical encarregada de cuidar dos pobres e doentes na Igreja dos primeiros tempos. Em especial, Estevão e Filipe, desempenharam um papel particularmente ativo nos primeiros tempos do cristianismo.