9 de fevereiro de 2008

A tentação


Procuremos entender as três tentações que o Diabo fez a Jesus. Elas representam a maneira errada de se relacionar com as três realidades: com as coisas, com Deus, com as pessoas.

1º- "Diz a estas pedras que se transformem em pão": aqui é denunciado o modo errado com que o homem e a mulher se relacionam com as realidades materiais. Acumular para si próprio, viver do trabalho dos outros, desperdiçar em luxos e em coisas desnecessárias, enquanto a outras pessoas falta o necessário. A esta tentação estamos nós sujeitos todos os dias. Ora, a Quaresma é tempo de revisão de vida e de conversão.


2º - "Lança-te daqui abaixo:" também nós cedemos a esta tentação sempre que exigimos de Deus sinais do seu amor, sempre que lhe pedimos para ser libertados, mediante graças e milagres, das dificuldades, das contrariedades, das desgraças que atingem as outras pessoas. Em cada situação, feliz ou dolorosa, devemos, sem dúvida, rezar-lhe, não para que conceda privilégios ou para que nos dê luz e força para sairmos mais maduros de cada prova. Não devemos esperar que Deus nos trate de forma diversa da que tratou o seu amado Filho Unigénito.


3º - "Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares": é a tentação do poder, do domínio sobre as outras pessoas. A escolha é entre dominar e servir, entre competir e ser solidário, entre subjugar e considerar-se servo. O desejo do poder é de tal modo imparável que até mesmo quem é pobre é tentado a dominar quem é mais fraco do que ele. A autoridade é um carisma, um dom de Deus à comunidade, para que cada pessoa possa ser colocada no seu lugar e sentir-se realizada. O poder, pelo contrário, é diabólico, mesmo se exercitado em nome de Deus.


Neste tempo da Quaresma somos convidados a rever a nossa vida e darmo-nos conta de que tudo o que temos e somos deve ser canalizado numa linha de humildade e de serviço.
(P. José Granja)

6 de fevereiro de 2008

Cinzas


Começa nesta quarta-feira a preparação para a festa mais importante para os cristãos, a celebração do acontecimento central e máximo de toda a história da humanidade. A Páscoa. E porque ela é tão grande, merece uma preparação consciente.
E como iniciamos esta preparação? Colocando cinza sobre a nossa cabeça, como sinal de penitência, isto é, como sinal de que estamos dispostos a seguir no caminho de Deus com seu projecto de justiça e paz para todos.

Serão então quarenta dias de preparação: Quaresma.

Quarta-feira de cinzas! Celebramos neste dia o mistério do Deus misericordioso que acolhe a nossa penitência, a nossa conversão, isto é, o reconhecimento da nossa condição de criaturas limitadas, mortais, pecadoras. Conversão que consiste em crer no Evangelho, isto é, aderir a ele, viver segundo o ensinamento do Senhor Jesus. Numa palavra, trata-se de entrar no caminho pascal de Jesus. “Convertei-vos, e acreditai no Evangelho”: é o convite que Jesus faz (cf. Mc 14,15).É esta palavra que escutamos no momento da imposição das cinzas.
Por que cinzas? É para nos lembrar que na verdade somos pó! Mas não reduzidos a pó!... A fé em Jesus ressuscitado faz com que a vida renasça das cinzas. Quando o ser humano reconhece sua condição de criatura realmente necessitada da acção de Deus, em Cristo e no Espírito, então Jesus Cristo faz brotar vida de nossa condição mortal. Reconhecer-se assim, é entrar numa atitude pascal, isto é, de passagem com Cristo da morte para a vida. É tempo de conversão, através dos exercícios da oração, do jejum e da esmola ou partilha de bens e gestos solidários, no espírito do Sermão da Montanha.

Quarta-Feira Cinzas
Quarta-Feira Cinzas

4 de fevereiro de 2008

Bem-Aventuranças


Jesus ensina o cami­nho para alcançar a felicidade: as Bem­-Aventuranças. Elas são dirigidas a todos os homens, cristãos ou não. São o fermento capaz de transformar o mundo desumano num mundo humanizado.


Eis apenas o seu significado fundamental.
Bem-aventurados os pobres: os que põem de parte a auto-suficiência e abrem o
seu coração a Deus e aos outros.
Bem-aventurados os que choram: os que sentem uma dor profunda pela socie­dade injusta, mas esperam sem desesperar a salvação de Deus.
Bem-aventurados os humildes: os que, apesar de explorados pelos poderosos, mantêm uma confiança ilimitada em Deus e recusam a violência.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: os que buscam a fraterni­dade e a justiça, que consiste sobretudo na recuperação dos pecadores e dos fracos.
Bem-aventurados os misericordiosos: os que agem como .Jesus, num amor sem limites, sabendo perdoar e aceitar o perdão.
Bem-aventurados os puros de coração: os que têm um coração limpo de hipo­crisia, leal e recto, e, por isso, têm a capacidade de fazer experiência de Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz: os que se empenham na construção de um mundo mais humano, mais fraterno e mais justo, onde é possível a harmonia comum e a sincera alegria de viver.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça: os que seguem o caminho de Jesus e, por isso, são perseguidos, sabendo que sem cruz não há salvação e a única forma capaz de vencer a espiral da violência é o amor.

As Bem-aventuranças não são promessas, são a proclamação de felicidade já para o tempo presente. Quem as pratica experimenta a felicidade, aqui e agora, plenificada, porém, no futuro. Não são ilusões, têm a assinatura de Cristo, que as viveu em plenitude e é a sua garantia. Elas são a Sua biografia completa.

3 de fevereiro de 2008

Sermão da Montanha


Segundo S. Mateus depois do chamamento de Pedro e André, grandes multidões acorreram ao encontro de Jesus, vindas de todo o lado, para ouvir a “Boa Nova do Reino” e para serem curadas (Mt.4,23). Mateus descreve-nos um grande discurso feito por Jesus na encosta de um monte e por isso é conhecido pelo “Sermão da Montanha”.

O “Sermão da Montanha” encontra-se nos capítulos V, VI e VII do Evangelho de S. Mateus, este discurso é muito semelhante ao do Evangelho de S. Lucas feito num “sítio plano” (Lc.6,17) sendo por isso vulgarmente chamado de Sermão da Planície (Lc.6,20-49).
O Sermão da Montanha é o primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de S.Mateus.

Neste discurso, Mateus fala sobre tudo que diz respeito à entrada no Reino de Deus:
- Quem pode entrar no Reino
- Quais as condições
- Quais os comportamentos a tomar dentro desse Reino.

Os outros discursos falam sobre a difusão do Reino, através
da pregação apostólica (Mt.10),
do Mistério do Reino, apresentado por meio de parábolas (Mt. 13),
da convivência mútua dentro do Reino (Mt. 18) e
da realização final do Reino (Mt.24-25).

O Sermão da Montanha divide-se em três partes:
I) As bem-aventuranças (mt.5,1-12), que indicam quais são os membros do Reino de Deus.
II) As atitudes a tomar pelos homens que fazem parte do Reino (Mt.5,13 – 7,12).
III) Conclusões finais (Mt.7,13-27), onde Jesus insiste fortemente na acção e não somente na mentalidade ou na intenção.

A primeira parte, as bem-aventuranças mostram os marginalizados pela sociedade, que são declarados felizes. Sinal de que, quando o Reino vier, terá cessado a injustiça, que hoje produz os marginalizados.

2 de fevereiro de 2008

Apresentação do Senhor no Templo


A data escolhida para a festa da apresentação de Jesus no templo pela Igreja de Jerusalém foi em princípio 15 de Fevereiro, 40 dias depois do nascimento de Cristo, que, então, o Oriente celebrava em 6 de Janeiro. A festa tem fundamento em Lc 2,22-40.

Em conformidade com a lei mosaica (Lv 12,2-4.8; Ex 13,2.11), que impunha o espaço de 40 dias entre o nascimento do menino e a purificação da mãe, também se devia oferecer o menino ao Senhor por ser o primogénito.Quando, nos século VI e VII, a festa se estendeu ao Oriente, foi antecipada para 2 de Fevereiro, porque o nascimento de Jesus era celebrado em 25 de Dezembro. Em Roma foi a apresentação unida a uma cerimónia penitencial, que se celebrava em contraposição aos ritos pagãos das "lustrações".Pouco a pouco a procissão de penitência passou a pertencer à festa, tornando-se uma espécie de imitação da apresentação de Cristo no templo, representando a viagem da sagrada família para Jerusalém.

O papa S. Sérgio I (Séc.VIII), de origem oriental, mandou traduzir para o latim os cantos da festa grega, que foram adoptados para a procissão romana. No século X, a França organizou uma solene bênção das velas que se usavam nessa procissão.Um século mais tarde, acrescenta-se a antífona "Luz para iluminar as nações" com o cântico de Simeão (Agora, Senhor, podeis deixar).

A apresentação de Jesus no templo, mais do que um mistério gozoso, é doloroso. Maria apresenta a Deus o seu filho Jesus, "oferece-o" a Deus.

29 de janeiro de 2008

Dois anos


Este blog completa hoje 2 anos.

Primeiro dia

Nunca imaginei que percorreria tanto caminho.

Como diz o poeta:

«Caminhante não há caminho,
faz-se caminho ao andar.»

Obrigada a todos que por aqui foram passando e deixando um pouco de si.

26 de janeiro de 2008

«Vinde e segui-Me»

«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Anunciar um reino novo, que está começando a acontecer na região da Galiléia, em Zabulon e Neftali, sem dúvida que era motivo de risos e troça por parte dos poderosos, mas não se trata de um simples anúncio, mas de um chamamento, proposta que exige uma resposta por parte do homem, um convite que atinge o homem no mais íntimo do seu coração, as primeiras pregações de Jesus atraiam muita gente, que aumentava na medida em que viam os sinais que Jesus realizava, mas comprometer-se com ele, ninguém queria, religião é Vida, atitude, comprometimento, assumir o risco de não ser aceite, de sofrer rejeições e perseguições, milhões de pessoas no mundo inteiro são adeptas do cristianismo, mas viver na fidelidade da fé, são poucos.
Ser discípulo requer opção radical, despojamento de si mesmo, abertura total aos princípios do evangelho, a transformação é lenta e requer maturidade, mas é preciso dar uma resposta imediata e pautar a vida a partir desta escolha.
Simão, Tiago, João e André estão na lida diária do seu trabalho de pescadores. Ao ouvirem o primeiro anúncio e o chamamento de Jesus, esses homens rudes, considerados impuros pelo sistema religioso, que nada conheciam das escrituras ou profecias, aceitaram e acolheram de imediato a proposta de uma vida nova, oferecida pelo Nazareno. A partir daí as suas vidas nunca mais foram as mesmas, e para manifestar essa radicalidade, o evangelista afirma que eles deixaram tudo, as redes, as barcas e até o pai Zebedeu.
Esse “deixar tudo” significa que Jesus torna-se naquele momento, o Senhor absoluto de suas vidas, suas palavras e atitudes, seu modo de viver, terá como fundamento a palavra, a pessoa e a vida de Jesus. E assim tornam-se discípulos, isso é, irão aprender com ele como construir este reino que em sua pessoa, já se faz presente.
A Galiléia paganizada, longe de Deus e descrente de tudo, está talvez do outro lado da rua, bem perto de cada um de nós. Galiléia é qualquer lugar onde o homem ainda não tomou conhecimento do projeto de Salvação que Jesus trouxe. A Igreja dos que crêem, e da qual Jesus é o Senhor da Vida e da história, é formada por discípulos que somos todos nós. A nossa opção por Jesus deve ser única e verdadeira, não temos o direito de voltar para trás, em nossa prainha particular, para pegar de volta todas aquelas coisas que um dia havíamos deixado, por causa do reino, Simão, Tiago, André e João, não voltaram...

(Adapt. José da Cruz é Diácono da Paróquia N. Senhora Consolata)