5 de dezembro de 2015

Isaías, o profeta

        


As leituras do Advento colocam-nos em contato com Isaías. Os textos evangélicos não dizem nada da personalidade do profeta Isaías, mas é citado frequentemente. Podemos até mesmo dizer que podemos advinha-lo presente nas palavras de Cristo.
É o profeta por excelência do tempo da espera, da esperança.

O profeta não é conhecido por outra coisa além de suas obras, mas estas são tão características que através delas podemos adivinhar e amar a sua pessoa. Surpreendente proximidade desta grande figura do século VIII antes de Cristo, que sentimos no meio de nós, quotidianamente, dominando-nos desde sua altura espiritual.
Isaías viveu em uma época de esplendor e prosperidade. Rara vez os reinos de Judá e Samaria haviam conhecido tal otimismo e sua posição política lhes permite sonhos ambiciosos. Sua religiosidade atribui a Deus a fortuna política e a religião espera dele novos sucessos. Em meio deste frágil paraíso, Isaías vai erguer-se valorosamente e cumprir sua missão: mostrar a seu povo a ruína que o espera por sua negligência. 

Pertencente sem dúvida à aristocracia de Jerusalém, alimentado pela literatura de seus predecessores, principalmente Amós e Oséias, Isaías prevê como eles, inspirado por seu Deus, o que será a história de seu país. Superando a situação presente na qual se misturam covardias e compromissos, vê o castigo futuro que direcionará os caminhos tortuosos. Isaías foi arrebatado pelo Senhor "no ano da morte do rei Ozias", por volta do ano 740, quando estava no templo, com os lábios purificados por uma brasa trazida por um serafim (Is 6, 113). A partir deste momento, Isaías já não se pertence. Não porque seja um simples instrumento passivo nas mãos de Yahvé; ao contrário, todo seu dinamismo vai ser colocado a serviço de seu Deus, convertendo-se em seu mensageiro. Mensageiro terrível que anuncia o despojo de Israel ao que só lhe restará um pequeno sopro de vida. 

O início da obra de Isaías, que originará a lenda do boi e do asno no presépio, marcam seu pensamento e seu papel. Yahvé é todo para Israel, mas Israel, mais estúpido que o boi que conhece seu dono, ignora seu Deus (Is 1, 2-3). 
(adapt. acidigital)


Isaias o profeta do advento

1 de dezembro de 2015

PARA TODOS OS “SEM” ÂNIMO


...O Advento é tempo para preparar o coração, há um imenso milagre a acontecer e é na oração que melhor o cuidamos, para que este seja uma cesta de misericórdia. Um espaço de acolhimento. O Advento é o tempo para aprender a acolher e melhor acolhe quem está pronto a dar mais do que presentes, mas a fazer-se presente. Não há melhor presente do que fazer-se presente a todos, sim, para todos. O Advento é o tempo para levantar a cabeça do imenso mar do consumismo, que nos afoga no individualismo, para acolher quem está para vir e vem, como já veio, na simplicidade de cada dia. Ele vem no presépio dos nossos dias, nestes dias tão comuns e atarefados como tantos outros. Há que acolhê-lo no íntimo do nosso ser, há que encontrar um lugar para Ele, um presépio, que será um sacrário, um lugar sagrado e, em nós, não há nada mais sagrado do que o coração, esse íntimo secreto que é nosso e de mais ninguém.... (artpinto )

29 de novembro de 2015

Primeiro Domingo Advento


Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas
e, na terra, angústia entre as nações,
aterradas (‘aporía = dificuldade para passar; falta, privação; necessidade, pobreza, apuro, sem meios, sem saída ou caminho que conduz ao nada) com o rugido e a agitação do mar.
Os homens morrerão (os homens perderão o sentido) de pavor,
na expectativa do que vai suceder ao universo,
pois as forças celestes serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem,
com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer,
erguei-vos e levantai a cabeça,
porque a vossa libertação está próxima.
Tende cuidado convosco,
não suceda que os vossos corações se tornem pesados (Baretwsin = carregado, pesado, fechado; estar pesado de embriagado, insensível)
pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida,
e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra.
Portanto, vigiai e orai (deómenoi = oração; suplica, ligar-se) em todo o tempo (kairw = propício) em todo o tempo,
para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer
e comparecer diante do Filho do homem».


Há que levantar a cabeça para ver mais longe, porque de cabeça caída ficamos fechados e cismados com tudo aquilo que nos aconteceu ou perdemos. Há que levantar a cabeça para conseguir ver um futuro inaudito. Este implica um coração limpo, leve, nada carregado pelo ideário do consumismo natalício ou pela dureza do negar-se a ver o sem saída de todas as saídas a que normalmente nos propomos. Orar: fazer-se disponível para a todo o momento acolher aquele que nos acolhe, mesmo antes de sabermos que em tudo procuramos uns braços que nos acolham. Oremos para que vivamos sempre ligados aos acontecimentos que semeiam em nós momentos de Primavera permanente (nascimento) (artpinto)

28 de novembro de 2015

Advento


Assim como a Páscoa tem um tempo de preparação, tem também o Natal um tempo litúrgico que o prepara, que recebeu o nome de Advento (=vinda). Como a Quaresma, é então o Advento um tempo forte na Igreja, com acentos litúrgicos especiais. Tem ele duas características, marcadas por dois momentos. O primeiro vai do primeiro domingo do Advento até o dia 16 de dezembro. Neste primeiro momento, a liturgia nos fala da segunda vinda do Senhor no fim dos tempos, a chamada escatologia cristã, aí presentes os temas do julgamento final, da vigilância, da missão de João Batista etc.. Costuma-se chamar esse primeiro momento de Advento escatológico. Já o segundo momento vai do dia 17 ao dia 24 de dezembro. É como que a "semana santa" do Natal. Nesse período, conhecido também como advento natalício, a liturgia vai nos falar mais diretamente da primeira vinda do Senhor, no Natal, tendo aí presente sempre a Virgem Maria.

No Advento temos quatro domingos, o terceiro chamado "Gaudete", isto é, domingo da alegria, já por ele como que antecipando as alegrias do Natal. Nesse domingo, a antífona de entrada, tomada de Fl 4,4-5, vai dizer: “Alegrai-vos, o Senhor está perto”. Além disso, no Ano B, a segunda leitura (1Ts 5,16-24) é uma exortação à alegria e à ação de graças, e, no Ano C, a segunda leitura vai ser o próprio texto de Fl 4,4-7. A cor litúrgica do domingo “Gaudete” pode ser o rosa.
Podemos dizer que os quatro domingos do Advento simbolizam os quatro grandes períodos em que Deus preparou a humanidade, de maneira progressiva, para a grande obra da redenção em Cristo. Esses quatro períodos são: 1º) O tempo que vai de Adão a Noé - 2º) O tempo de Noé a Abraão - 3º) O tempo de Abraão a Moisés - e 4º) O tempo que vai de Moisés a Cristo. Com Abraão começa, historicamente, a caminhada da salvação (Cf. Gn 12).

Os quatro domingos simbolizam também as quatro estações do ano solar e as quatro semanas do mês lunar. Aqui se pode ver a harmonia entre tempo histórico e tempo cósmico, principalmente quando vistos à luz do tempo litúrgico. Também a coroa do Advento, ou grinalda, em sua forma circular, com suas quatro velas, quer chamar nossa atenção, já no início do Ano Litúrgico, para o mistério de Deus que nele vamos celebrar. A cor verde dos ramos da coroa (pinheiro, principalmente), fala do mistério cristão, que nunca perde o seu verdor, e simboliza então a esperança e a vida eterna. No simbolismo das velas podemos ver não um sentido quantitativo da luz, mas o crescendo de sua intensidade, à medida que se aproxima o Natal. Por isso não são acesas já as quatro velas desde o início do Advento, mas no primeiro domingo acende-se uma; no segundo, duas; no terceiro, três; e no quarto domingo, quatro.

Três personagens bíblicos marcam o tempo do Advento, como se vê pelos textos bíblicos da liturgia. São eles: o profeta Isaías, São João Batista e a Virgem Mãe de Deus. Não é o Advento tempo penitencial, no sentido próprio e litúrgico, mas tempo de vigilância, de expectativa, de moderação, de sobriedade e de esperança. Por isso, a cor roxa não é muito apropriada para o Advento, podendo ser substituída pelo azul claro ou violeta, por exemplo, mas entendendo que a cor oficial é o roxo.

Mesmo sem ter uma data fixa de início, todos podem saber, sem dificuldade, quando se inicia o Advento, pois ele tem uma referência: 30 de novembro. Se, porém, 30 de novembro não for domingo, então o Advento começa no domingo mais próximo, na prática o domingo que fica entre os dias 27 de novembro e 3 de dezembro. Não nos esqueçamos de que com o Advento iniciamos não só o ciclo do Natal, mas também o novo Ano Litúrgico.


Nos domingos do Advento canta-se o Aleluia, mas não se canta o Glória. O fato de cantarmos o Aleluia mostra o carácter não penitencial do Advento, carácter que predominou no passado, tendo ressonâncias ainda hoje com a cor roxa, oficial, mas que, ao que tudo indica, será mudado no futuro. Já a omissão do Glória explica-se pelo comentário oficial às Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, quando diz: “no Natal, o canto dos anjos deve ressoar como algo de inteiramente novo”. Se cantássemos então o Glória no Advento, no Natal tal canto não seria novidade.

27 de novembro de 2015

ANO LITÚRGICO e a sua formação



          A formação do Ano Litúrgico foi lenta. O ponto de partida foi a Páscoa que era celebrada todos os domingos, isto é, o "primeiro dia da semana": (At 20,7ss.). Uma vez fixada sua data pascal para celebrá-la com mais solenidade, foram surgindo os dias das festas a ela relacionadas: Ascensão (40 dias após a ressurreição . At 1,5); Pentecostes (50 dias depois da comemoração pascal - Lev 23, 15-16; At 2, 1ss.). Do mesmo modo foram escolhidos os dias para Ramos, Última Ceia, Paixão e Morte de  Jesus. A Quaresma surgiu para dar oportunidade aos catecúmenos de melhor se prepararem para o batismo, na Páscoa.
          Mas existem outros mistérios difíceis de ser precisados no calendário, ligados à vida do Senhor. Por exemplo: a comunidade cristã estava interessada em celebrar o nascimento de Jesus, e os evangelistas não disseram uma palavra a respeito do dia e do ano. Tinham consciência de que não escreviam a biografia do Mestre; então, mais que dados cronológicos, se interessaram pelo mistério do Deus-connosco. Circunstâncias históricas levaram a escolher o dia 25 de dezembro como a data natalícia de Jesus. Na ocasião, os romanos celebravam o solstício do inverno. Para eles, aquela noite começava a ser menos longa. Era a vitória da luz sobre as trevas.     Havia, então, uma festa pagã de Natalis invicti, isto é, do deus -sol que nascia e crescia para impor o domínio da luz. O significado se prestava para a mensagem do Natal: Jesus, o sol da justiça (Mal 4,2 ou 3,20), Jesus, a luz do mundo: Jo 8, 12. Deste modo, a festa pagã foi cristianizada e passou-se a celebrar o nascimento do Senhor no dia 25 de dezembro.
        
Como consequência lógica, é escolhido o dia 25 de março para a Anunciação de Nossa Senhora (Lc 1,26ss.) e outros dias, perto do Natal, para celebrações como: a Maternidade de Maria no primeiro dia do ano, Magos (Mt 2,1ss.) no dia 6 de janeiro, Sagrada Família.
          Mais ou menos da mesma maneira foram sendo escolhidos dias especiais para se comemorar São José, São João Batista e outros Santos.

          Assim foi se formando o atual Ano Litúrgico.



25 de novembro de 2015

Ano Litúrgico





O Ano Litúrgico é o tempo que marca as datas dos acontecimentos da História da Salvação. Não é como o ano civil, que começa em 1º de Janeiro e termina em 31 de Dezembro, mas começa no 1º domingo do Advento (preparação para o Natal) e termina no último sábado do tempo comum, que é na véspera do 1º domingo do Advento

O nosso Calendário Litúrgico tem raízes no Hebraico. Influências diversas determinaram celebrações e datas significativas, mobilizando e acrescentando ao vasto substrato cultural pré-Cristão novo simbolismo. À celebração do 'Mistério Pascal', acrescentaram-se festas ideológicas, devocionais e temáticas, bem como algumas celebrações relacionadas com a História da Igreja.
A celebração da Paixão e Ressurreição de Cristo constitui o "coração" do Ano Litúrgico. Este é constituído pelos Ciclos Festivos da Páscoa e do Natal, pelo chamado "Tempo Comum" e pelas outras Solenidades e Festas consagradas ao "Mistério da Redenção".
 A este conjunto dá-se a designação de "Proprium de Tempore" ou Temporale (Temporal). O Calendário dos Santos é chamado Santorale (Santoral), sendo divulgado nestas páginas o Calendário Romano Geral que prevalece sobre os Calendários Diocesanos e Religiosos (Ordens).

Com o aumento gradual do número de celebrações ao longo da História do Calendário Litúrgico, criou-se uma hierarquia através de precedências e 'Oitavas' (semanas festivas) privilegiadas. Hoje, apenas a Páscoa e o Natal têm Oitava. Após o Vaticano II, as Festas dividem-se em 'Solenidades', 'Festas' e 'Memórias' (Obrigatórias e Facultativas). 

Novo Ano Liturgico

22 de novembro de 2015

Para os "sem" REI


Certo dia um rei mandou prender o pintor mais famoso do seu reino. A acusação era simples: o pintor era um mentiroso, porque pintava um reino que não existia. Talvez tivesse sido esta a acusação de Jesus, traduzia para uma linguagem mais simples. Jesus, mais do que pintar um reino impossível, amassou a massa da vida humana com um fermento diferente para todos os corações. O rei que mandará prender o pintor argumentou que nunca tinha encontrado em todo o seu território cores tão rubras como aquelas que o pintor usava nos quadros onde explanava as paisagens do reino. Assim também Pilatos quando pergunta a Jesus pela verdade, porque nunca encontrara nas paisagens humanas o reino que este apresentou nas suas palavras e gestos, em todas as suas vivências.
Há um outro reino a ser edificado e para nós que estamos a crescer entre tanta violência, começa a ser difícil acreditar nessa outra possibilidade. Para nós, que fomos formados para construir o reinado do “eu” com tudo o que é “meu”, parece impossível aceitar o outro que, connosco, fará o reino do “nós”. Há todo um mundo de violência que grita por mais violência, segundo a velha máxima: “ódio gera ódio”. O objetivo último do terror é provocar medo para dividir os corações. Pilatos estava aterrado de medo diante de Jesus, mas principalmente diante dos Judeus, por isso só conhecia as soluções da violência. Jesus coloca-se diante de todos os impérios humanos, políticos, religiosos ou culturais e ideológicos sem medo, Ele nada tem que lhe possam tirar, porque tudo está pronto a dar, até a própria vida, Ele venceu todo o medo com o amor. Diante de Jesus, todos os reinos são dados em julgamento. A sua simplicidade e a Sua humildade fazem dele um homem para estar ao serviço e não para se servir, um rei que se entrega para não perder nenhum dos seus, que vai à cruz para não matar. Jesus é em tudo em Rei diferente, que não falseia nem pinta uma realeza que mais parece um deus para se adorar. Ele não pinta meramente um quadro, deixa-se amassar, toca a realidade e na realidade é amassado pelos diversos acontecimentos. Aqui Ele coloca um fermento novo, o amor. No amor toda a história pode ser amassada e o pão passa a alimentar a liberdade humana com outra possibilidade. A possibilidade de Jesus é a da verdade vivida no amor e a de um amor verdadeiro. Em Jesus há um outro reino, aquele outro do último ser primeiro.
É neste marco geodésico dos poderes humanos que entra o julgamento de Pilatos: tu és ou não rei? Como se reina sem poder? Ou como é possível governar com confiança, mas sem ostentação, sem imprimir medo nos corações? Como se é rei sacrificando-se pelos últimos? Nenhum dos poderes humanos acredita ser possível um rei assim, porque todos, servindo-se do poder, idolatram-se, enquanto Jesus faz do serviço um poder que questiona todos os outros. O verdadeiro poder está na capacidade de se fazer um com os outros, servindo com amor todos aqueles que os poderes humanos esquecem e condenam à miséria. Então há que percorrer as estradas poeirentas onde a humana condição se vê despojada da sua dignidade, fazendo visível a majestade própria de cada pessoa. Jesus sofre a pobreza de um povo miserável e não foge à necessidade de dar uma resposta a cada indigente. Ele sai do palácio das verdades humanas, feito de desculpas e escusas. Só assim, poderá no amor tocar cada um na sua situação e desafia-lo à vida. Ele próprio faz-se caminho de uma outra possibilidade, da possibilidade da felicidade na pobreza de espírito, nas lágrimas que choram a fragilidade das nossas soluções, na paz que se constrói com o perdão, com a mansidão que abre os corações para que sejam limpos de todos os medos que impedem a paz de ser o maior hino dos dias a serem vivos por cada um de nós. Jesus propõe um reino de paz, de quem se sabe amado de verdade e na verdade do perdão que se dá e que se recebe, amassa a história entre as mãos da liberdade e da justiça com o fermento do amor.
A condenação do mundo é óbvia, pois não acredita ser possível viver com verdade. Verdadeiramente, o mundo não vive, não arrisca a verdade, de se apresentar na varanda dos julgamentos e apresentar-se na sua debilidade. Pilatos apresenta Jesus: “eis o homem”, pensando que está a exibir um falso, contudo apenas faz patente a falsidade de todos os poderes que se autoinstituem como salvadores da justiça e da liberdade. Jesus sempre respeitou a liberdade de cada um: “que queres que Eu te faça”; “Mestre, que eu veja”. É verdade Senhor, é isto que Vos peço, que eu veja a justiça acontecer, fazendo-me menos para que cada um dos meus irmãos se saiba amado e nesse amor se liberte de tudo o que o aprisiona à miséria de não viver a sua dignidade de filho muito amado de Deus. Senhor que o vosso reino habite no meu coração e meu seja o reino que faz do pão o alimento para todos nós.( artpinto)